A salvação do silêncio

Terapêutico e amoroso.

 

Faço questão de começar dizendo que escrevi este texto no mais silêncio que me é possível. Não absoluto, mas possível. Na verdade, estou me esforçando para escrever e trabalhar mais em silêncio, ouvindo músicas às vezes… poucas vezes. Isso me ajuda a ter mais atenção e profundidade.

Poderíamos começar dizendo da salvação do silêncio em si, como se a salvação viesse dele mesmo, como se ele fosse uma fonte e os seus frutos fossem deliciosos. Outra leitura – podemos pensar – é salvar o silêncio, talvez tão escasso hoje em dia. (Será que há sombra de dúvidas?) Uma vez que está em constante ameaça e sua ausência (paralelo com o silêncio que seria a ausência de barulho), causa incontáveis tormentos e sofrimentos.

 

A perspectiva medicinal ou terapêutica

Lembro-me de um livro do Frei Patrício Sciadini, O barulho adoece e o silêncio. Não li o livro por inteiro, que pena, mas absorvi o que é óbvio no título e quis buscar, por um tempo, mais silêncio ou ocasiões de silêncio. Mas não deixa de ser verdade, que relutamos e podemos deixar bons hábitos, quando perdemos de vista o seu sentido. Assim foi comigo, mas agora estou retomando este propósito.

Palavras mal-ditas podem ser maldosas e causar um tremendo incômodo. Quantas pessoas tem o seu ponto fraco nisso… Vejamos algumas formas das palavras tornarem um novo rumo.

  1. Palavras emocionais: Impulsividade… respostas impensadas, exclamações “sem filtro” etc. Aqui entra a necessidade de medir a palavra, de verdadeiramente mortificar. O silêncio – não precisa de ser um (a) monge/monja, claro – é uma forma de autodomínio, uma conquista de nós mesmos. O que revela um domínio das emoções e consolida uma alma espiritualmente forte.

  2. Torrentes verbais: Aqui é onde há o excesso de palavras, e a pausa – como na música – não tem hora e nem vez. Lembremos que no diálogo, há duas facetas, duas vias, alguém que fala e escuta, e depois o que falou escuta, e o que escutou fala (regras mais claras, impossível).

  3. Palavras vaidosas: Desde o “meter a colher” – dar a opinião em tudo – até contar muito de si, informar os outros de coisas até então desconhecidas… ser como um “jornal ambulante”. Aqui falta o ingrediente da humildade.

  4. Palavras secas: Nos referimos ao modo de falar: pessoas que estão habituadas a falar de modo seco, áspero e rude. Algumas são aplaudidas por isso, outras se incomodam. De um lado, uma excessiva sensibilidade brasileira talvez, de outro lado o excesso de rigor nas palavras, o típico “corte tramontina sincerão”. Aqui, os ingredientes da amabilidade, cortesia e suavidade são decisivos e revigorantes.

 

Silêncio no amor

Se o amor é expressado por palavras, tudo bem se não é a sua linguagem de amor principal, é certo que o silêncio também tem a sua vez. Entendamos os seus tipos.

  1. O silêncio atencioso: A escuta é como que contemplativa, busca o outro com ativo interesse e ouve tudo, sem interromper e sem pressa. Como isso é revigorante para aquele que padece de palavras não ditas e encontra um coração que tem sintonia com o seu!

  2. Oferta de um sacrifício: Pessoas que não reclamam, ou marcam presença negativamente e de forma escandalosa. Sua agradabilidade é convidativa para um contínuo convívio. É também quando tem o recebimento de uma injustiça, por atitudes e comentários perniciosos, e mesmo assim o silêncio é a primeira arma a ser usada.

A expressão sublime do silência desenbocará no ouvir Deus e ter intimidade com Ele, onde o coração queima, purifica e se transforma. Na verdade, o silêncio acaba sendo um mestre do amor – como refere Ernest Psichari.

Por hoje isso é tudo.

 

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